domingo, 16 de dezembro de 2012



A fama dos pupilos


Era o último dia de inverno e as ruas do centro da cidade estavam enfeitadas para a festa da primavera, que acontecia sempre na primeira semana da estação. As ruas cheias de flores, em postes, casas com janelas decoradas, vestidos com o tema nas butiques; eram exaltadas as canções sobre a primavera pelos bardos nas esquinas e tavernas. Enfim, a cidade realmente ficava mais bela nessa época do ano.
Leturian, uma cidade com pouco mais de mil habitantes, no geral, com costumes bem acolhedores. Viajantes são cortejados no comercio, pois a economia local ganha muito com sua presença. Só não são melhores tratados que os cavaleiros da guarda real; com suas armaduras polidas, seus elmos austeros e alinhadas espadas a serviço do rei.
Sempre bem protegida em seu núcleo, a cidade tem fama de tranquila. É o que o Guardião da cidadela oferece e tenta manter aos turistas e moradores. Porém, há periferias nos lugares mais afastados. Embora aparente um lugar seguro e calmo, não é bem assim que realmente sentimos olhando com atenção. Os guardas têm certos problemas nessa região, onde as pessoas estão mais afastadas dos bons modos e da cultura de seu povo. De quando em quando há roubos e outros delitos, tanto na periferia como no centro. Bem por que, correm boatos que existe uma guilda formada por praticantes destas “artes” ao leste da cidade. Por enquanto não existem provas, mas para os homens de armas não são apenas murmúrios. Pouco tempo atrás capturaram o que pensavam ser o chefe da guilda. Lobo, cuja fama entre o mundo do crime é grande na região, especializado em golpes passando-se por receptador de mercadorias importadas de outras cidades. E não demorou muito para que ele fosse resgatado por seus homens, ficou preso por mais ou menos quinze dias.
O capitão revoltou-se com os guardas que faziam a guarda na noite em que Lobo sumiu da cela. Para tanto, ele os puniu com a expulsão da guarnição. Barven Tilman, homem justo e inflexível à seu modo, combate o crime com punhos de ferro há mais de dez anos. Nunca havia passado por tal constrangimento.
A noite de abertura do Festejo das Flores, começou com um breve discurso do Guardião, Lorde Hessark. Após o discurso, iniciou-se o espetáculo com fogos de artifício, malabaristas e diversos jogos nas tendas espalhadas pelas ruas. Comidas doces e salgadas eram servidas em barracas projetadas e casas comerciais. Os músicos aproveitavam bem o momento para ganhar um trocado também. Dentre eles, havia uns que se destacavam mais que outros, embora houvesse espaço para todos. Lucravam igualmente os batedores de algibeira, pois vinham muitos turistas para gastar sua fortuna em nome de suas vaidades e divertimento.


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“Aquele, vamo pega aquele.” – disse Mourin para seu amigo, apontando um homem gordo com indumentárias de classe. Um menino magricela que aparentemente tinha uns doze anos de idade, aproximadamente um metro e vinte de altura e sua vestimenta era rala e despojada. Os dois, na verdade, em meio à sujeira eram bem parecidos.
“Como vamo pega ele?” – duvidou Nefran. “Vai lá pedi um corbe pa ele, que eu vo por ditrás e robo” –  Mourin planejou.
Os garotos foram até a figura rechonchuda que estava numa banca de doces se esbaldando de comer cogumelos cristalizados e mais. Enquanto um foi pedir-lhe esmola e até um doce, sua vontade aguçou ao vê-los. O outro com uma pequena lâmina suavizou a cinta do homem, perfurando-lhe a algibeira. Mourin mesclou-se na multidão que passava e foi para o ponto de encontro. Enquanto Nefran ficou ali com cara de cachorro pidão, simulando inocência. O infeliz com algumas moedas de cobre sobrando na mão, ainda com pena, pagou um doce para o sujo-imundo. Com um sorriso no rosto o garoto agradeceu e foi a toda pressa ao encontro do amigo.
“Déiz ôro e sete pla...prata pa cada” – dividiram contentes. Estavam num beco afastado da aglomeração. Passava na avenida próxima algumas carroças de mercadorias em direção a festa, gente de todo tipo. Carroças lotadas de Margarida, Narciso Silvestre, Orquídea, Papoila, Rosas de todas as cores: branca, vermelha, cor-de-rosa escuro e claro, cor-de-laranja ou coral, azul, chá, champagne, rosa-de-sem-folhas e moscada; e várias outras. Escondidos ao lado de uma casa, numa viela sinuosa, com grossas colunas que a sustentava,  tratavam de como iriam gastar sua riqueza; cada um ao seu modo. Um dizia que queria comprar roupas melhores, para poder se apresentar a guilda. Pois queria ser igual ao Linnus ou Duque, que deixaram a guilda com um feito e tanto, trouxeram o mestre Lobo de volta a ativa. Lobo era um dos mestres, entre cinco, cada um com uma especialidade. Já o outro queria ser igual ao mestre Tinili, que por inúmeras vezes participou de expedições longínquas em cavernas e tumbas antigas. Tinili que aceitara Linnus e Duque na época, especialista em explorações.
Era o que se comentava dos pupilos, desde pobres meninos como estes, aos iniciados que entravam para orla de Rubí do Dragão. 



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