domingo, 9 de dezembro de 2012



Vendo que o guarda tinha se afastado um pouco, não podendo deixar a oportunidade passar, acenei pedindo para que Lobo viesse rápido. Estava escondido atrás de uma caixa retangular grande encostada na parede. Imaginava algum tipo de armamento estocado estranhamente ali no corredor, que bem podia ser lanças ou algum segredo. Me certifiquei para que os  guardas não nos visse e auxiliei meu companheiro para uma paliçada, nos encobrindo. Nela, uma mancha de vômito da noite passada de algum guarda bêbado, ainda com o azedo adstringente, vindo um bafo no rosto. Dali, fomos para o lado oposto da confusão.
Uma heráldica na bandeira tremulante, marcada por uma espada dourada sobre escudo prateado num brasão verde e amarelo, passamos a entrada da área de treinamento da cavalaria. Num estandarte dizia: “Coragem, Lealdade e Generosidade”.
Mais rápido agora, na medida do possível, e procuramos o melhor lugar para fugir. Escalando a muralha em um canto oculto, escuro demais para definirmos o que era o quê. Parecia que pegávamos ora em raízes umedecidas, ora em pequenas fendas da muralha. Mas também não tínhamos tempo para reparar. Os olhos revelaram depois da adaptação, sem maiores detalhes, rachaduras e desgaste do tempo. 
Chegando ao topo, descansamos um pouco nos segurando no paredão. Já estava sentindo a sensação de livrar Lobo daquele lugar. Ansioso para que acabasse logo aquela noite, e que na manhã seguinte pudessem sentir o que os raios de sol zombariam nos olhos dos “ratos” da guilda.
Tentei ouvir passos, nada, em seguida uma espiada, tudo calmo. Certo! Hora de descer. Não à toa aquela insatisfação do rio projetada sobre nós, pois estávamos onde não gostaríamos de estar. Junto ao paredão batia água veloz demais, e o vento parecia brincar de ir contra as placas de rocha de vez em quando.
E agora? Se descermos seremos arrastados pelas águas do rio. Não temos como descer por aqui. No entanto, esse é o único caminho. – olhando num ponto morto lá embaixo pensei.


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“Ei garoto! Vou te ensinar um truque. Me de sua corda aqui” – Lobo sugeriu. Dei a corda a ele. Analisou, girou e arremessou numa rocha com longas e fortes espadas quadradas à margem do Águas Pertubadas, águas que davam nome ao rio. Estava a uma boa distância da corda de trinta metros, na margem oposta, qual prendeu firmemente. “Viu?! Você tá se preocupando muito, pensando como descer e não ser arrastado pela água. Olhe em volta ‘leite de cabra’ e analise todas as possibilidades.” – Lobo se vangloriou, parecendo feliz consigo. Amarrou a ponta que sobrara em um robusto tronco de madeira, dos vários, em cima do muro. Suspirei em pensamento pela ajuda e disse: “Vai na frente”. Fiquei de prontidão para qualquer acaso. 
Ele estava com as pernas entrelaçadas por cima da corda, de costas para mim e para o Águas Pertubadas.  Agarrando a corda com firmeza foi-se, deslizava abaixo. Pisando em terra firme deu adeus com uma saudação, semelhante a uma donzela de vestido em sua cortesia. Parecia que estava sorrindo, não consegui definir bem esse detalhe, pela emoção que sentia, pela situação que estava correndo ou pelo pálido toque das estrelas em seu rosto, não sei bem.
Minha vez – quando estava concluindo esse pensamento ouço: "Linnus, espere!" Meio que tentando sussurrar e meio sem fôlego para fazê-lo, era Duque. Vinha agachado, com o rosto mais pálido ainda pela afobação. Meneei a cabeça e espalmei as mãos na altura da cintura. – como se perguntasse o que tinha acontecido. “Vamos descer, derrubei um guarda. Logo estarão atrás da gente” – respondeu.









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